Vanja Hertcert - Arquitetura

Jornal Bon Vivant

Fórum Internacional de Viticultura e Enologia debate a identidade, promoção e imagem do vinho / acessar

O Fórum Internacional de Viticultura e Enologia (FEAVIN), realizado no dia 11/04, durante a Semana Internacional Brasil Alimenta 2008, reuniu cerca de 350 profissionais ligados a cadeia produtiva da uva e do vinho. Diversos temas foram apresentados durante todo o dia. O programa iniciou com a palestra do Doutor e Pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, Jorge Tonietto, que falou da "Identidade do Vinho Brasileiro". Ele destacou a imagem de qualidade dos vinhos das regiões que se evidenciam no mundo, sempre associada ao caráter diferencial de sua produção. Neste sentido, não somente a qualidade sensorial do vinho conta, mas também os aspectos ligados à região de produção e suas originalidades como as variedades, os sistemas de cultivo, a paisagem e a história. "A associação destas características forma um quadro capaz de diferenciar e, muitas vezes, conferir notoriedade aos vinhos, além, é claro, de agregar valor aos mesmos", explicou.

O pesquisador citou como exemplo os vinhos finos Chardonnay e Riesling Itálico, ambos elaborados a partir de variedades viníferas brancas. O Chardonnay é um vinho com identidade, porém idêntico em qualquer parte do mundo. Já o Riesling Itálico pode ser distinto por ser encontrado em regiões específicas, com características particulares. O caminho que o Brasil vem percorrendo foi muito bem comparado com o histórico vivido pela Argentina, conforme apresentou o engenheiro agrônomo Carlos Domingo Catania, da Universidade Nacional de Cuyo. Catania relatou que 50% dos vinhos elaborados na Argentina já foram de variedades americanas e que o consumo per capita chegou a 80 litros em 1980. "A produção passou a ser predominantemente vinífera com o passar do tempo e o consumo per capita caiu consideravelmente, sendo que em 2007 manteve-se estabilizado em 33 litros", explicou.

Uma das curiosidades da palestra do argentino foi a afirmação de que muitas variedades que eram cultivadas em países da Europa e que foram exterminadas devido a crise da filoxera hoje somente são encontradas na Argentina. A bandeira do país é o vinho Malbec que em 1966 era responsável por uma área cultivada de 60. mil hectares. Devido a falta de incentivos por parte do governo, a área plantada caiu para 25 mil hectares em 2006 e agora volta a ganhar força. De acordo com o engenheiro agrônomo, a variação latitudinal, a altura e as características dos solos conforme as diferentes áreas agro-climáticas permitiram a expressão diferencial das cepas formando a vitivinicultura original. "A globalização, as novas técnicas culturais e enológicas são uma ameaça que tendem a uniformizar os vinhos. As indicações de procedência são vistas como a melhor maneira de manter esta diversidade dos vinhos argentinos", ressaltou.

A programação da manhã encerrou com o painel "Identidade na visão de quem produz". O relato de cinco empresários mostrou o panorama do Brasil em suas diversas regiões produtoras. Jorge Garziera falou dos vinhos do Nordeste. Jean Pierre Rosier abordou a vitivinicultura de Santa Catarina, enquanto Carlos Abarzua avaliou o cenário atual da Serra Gaúcha. Os vinhos da Serra Sudeste foram apresentados por Idalêncio Angheben e o último relato foi da região da Campanha feito pelo empresário Gladistão Omizzollo.

A italiana Anne Seznec abriu a programação da tarde do dia 11/04 apresentando o tema "A Evolução dos Fechamentos para Garrafas de Vinho" e disse que existe um mercado promissor para a utilização de rolhas sintéticas e tampas de rosca. Mesmo relutando contra esta tendência, países europeus tradicionais no uso de rolhas de cortiça, já admitem sua participação no mercado. Ela citou como exemplo a Nova Zelândia, onde 90% da produção utiliza este tipo de vedante. Na Austrália este percentual é de 50%. A tendência aponta um equilíbrio maior entre o uso de rolhas de cortiça, sintáticas e tampas de rosca.

O FEAVIN também contemplou a "Arquitetura e Identidade", assunto que foi conduzido pela arquiteta Vanja Hertcert, que relacionou a identidade da marca com os atributos do vinho, a expressão do vinicultor, as características visuais do prédio da vinícola e o design da embalagem. Para ela, num mundo em constante evolução, é natural que a vitivinicultura também sofra profundas transformações. "São novas tecnologias para aprimorar processos que necessitam espaços adequados, associando o produto final ao espaço onde ele é elaborado", defendeu. A arquiteta foi muito mais além. Ela disse que o prédio e as instalações da vinícola influenciam o ânimo e o espírito das pessoas que lá trabalham e que a visitam, refletindo a ambição quanto ao vinho.

A última palestra do dia enfocou o consumidor de vinho no Brasil, apresentado pela Coordenadora de Projetos da Market Analysis Brasil, que detalhou alguns dados preliminares de uma pesquisa que pretende identificar o perfil do consumidor brasileiro. Os desafios do vinho brasileiro foram apresentados na visão de 3 comunicadores: Marcos Pivetta, Affonso Ritter e Carlos Arruda. Eles debateram a necessidade da promoção de ações de marketing institucional do vinho brasileiro, além de enaltecer ações como a da Associação Brasileira de Enologia ao realizar, entre outros eventos, a Avaliação Nacional de Vinhos e chamaram a atenção para a falta de informação ao consumidor.

Safras arquitetônicas: O Brasil desperta para as vinícolas emblemáticas / acessar

Danúbia Otobelli

Elas são bonitas, grandiosas e destacam-se pela ousadia. Até pouco tempo, as vínicolas eram vistas apenas como lugares para a produção de vinho. Mas, há cerca de duas décadas, elas foram descobertas pela arquitetura contemporânea e transformaram-se. Os vinicultores começaram a contratar arquitetos de renome para romper com os paradigmas das antigas construções e projetar vinícolas muito além de quatro paredes. Atualmente, existem edificações grandiosas na América do Norte, na Europa, na Oceania e na América Latina. Seguindo a corrente mundial, o Brasil caminha (a passos lentos) para as adegas emblemáticas. "Está acontecendo uma profissionalização do mercado vinícola. As novas regiões produtoras brasileiras, como São Paulo e Santa Catarina, já estão trabalhando. As mais tradicionais ainda estão começando. Mas, a médio prazo, ocorrerá a mudança", aposta o enológo Anderson De Césaro, que atua na Rossi e De Césaro – Arquitetura Enológica.

Ainda estamos muito longe das dimensões que o fenômeno já adquiriu na Espanha, nos Estados Unidos, na França e em Portugal, onde nesses primeiros anos do novo milênio os projetos se multiplicaram. "Nunca esteve tão em evidência lá fora. Mas não é uma novidade, o que há de novo são as propostas implementadas nesses últimos dez anos. No Brasil, é um processo que começa a engatinhar, com alguns projetos que serão referências no futuro, ainda em fase de construção", atesta a arquiteta Vanja Hertcert, que está trabalhando em oito projetos vinícolas, entre novos empreendimentos e revitalizações.

As mudanças nas vinícolas estrangeiras ajudam a dar o formato as adegas nacionais. Conforme Vanja, a nova arquitetura do vinho possibilita lutar de igual para igual com o mercado internacional. "Para ter sucesso no negócio do vinho precisamos explorar todas as possibilidades que alavanquem nossa marca e agreguem valor ao nosso vinho. Como os espanhóis costumam dizer, ter um bom vinho não é suficiente, é condição mínima para estar no mercado. Temos que ter diferenciais e a nova arquitetura do vinho vem gerando vinícolas com uma cara nova, certamente iremos apresentar diferenciais e, aos poucos, convecer o mercado de que nosso vinho mudou e para muito melhor", afirma.

Novas vinícolas

Com as mudanças no mundo dos vinhos, a era das antigas vinícolas terminou e novos padrões foram estabelecidos. Os locais começaram a necessitar de espaços que adequassem a tecnologia e os processos de produção e guarda (engarrafamento, fermentação) ao mesmo tempo em que proporcionassem uma morada nobre a bebida. "São espaços para a enogastronomia, para o enoturismo. Nas novas vinícolas tudo está dentro de um ambiente único e o visitante está integrado a isso", aponta o arquiteto Celestino Rossi.

Para esses novos empreendimentos não existe uma tendência ou parâmetro, mas pequenas vinícolas que projetem espaço para o turismo e a gastronomia despontam. Entre os critérios utilizados pelos arquitetos estão os materiais, a funcionalidade, a estética, e, principalmente, a tecnologia. "Esta última se renova a cada dia e devemos usá-la a nosso favor. Os projetos precisam ser simples e funcionais, mas sem deixar de ousar e fazer propostas novas", afirma Rossi, que atualmente está desenvolvendo projetos enológicos em São Paulo, em Santa Catarina e na Serra Gaúcha.

Para conceber um espaço desses, o layout é o primeiro passo, seguido pelo uso dos materiais. "O ideal é valorizar materiais da região e do local e cuidar com as questões do meio ambiente", diz Rossi.

De um modo geral, quando se pensa em um projeto parte-se do princípio do vinho que será produzido e como são seus processos de elaboração. Conforme Vanja Hertcert, a partir dessas informações a planta é desenvolvida com base em quatro grandes premissas: o processo, sua linearidade e funcionalidade enquanto produção do vinho; a assepsia com a utilização de revestimentos adequados e não passíveis de contaminações; os controles ambientais, de temperatura, luz e umidade para garantir o rigor na qualidade do vinho; e a cenografia, fundamental para o enoturismo. "Buscamos prédios cujas formas emocionem pela plasticidade e praticidade, instalações que surpreendam pelos materiais aplicados e que valorizem a tecnologia ali abrigada. Vinícolas que transmitam uma imagem de moderno, global, atual, desejável, ao vinho ali elaborado", destaca a arquiteta. Mas, isso sem perder a tradição e a identidade que a vinícola possui. "Preservar não é manter nos mesmos padrões, mas restaurar", diz o arquiteto Rossi. Vanja complementa: "Reverenciar e proteger o passado, mas sempre andar dois passos à frente, em direção ao futuro. Gosto de dizer que manter uma tradição não significa usar o chapéu do seu avô, mas continuar usando chapéu, como ele fazia".

Enólogos e arquitetos

O novo estilo das vinícolas fez com que os enólogos se unissem aos arquitetos ou vice-e-versa. Esse relacionamento contribui para o bom andamento da adega, que pode ser em estilo boutique, château ou colonial. "O arquiteto e o enólogo desenvolvem a metodologia juntos, mas os projetos independem", destaca o enólogo Anderson De Césaro. Conforme a arquiteta Vanja, o enólogo irá determinar as premissas das técnicas do processo, enquanto o arquiteto gera o ambiente em que esse processo é otimizado. "Construirá espaços com cenografia fortemente emocional, que cative os visitantes, construindo uma imagem forte e com identidade para a marca", conclui.

Adegas com terroir

Já era de se esperar que o processo de modificação das vinícolas iniciasse nos Estados Unidos, ou mais precisamente, no Napa Valley, o famoso vale californiano, situado ao norte de São Francisco. Foi lá que, há cerca de 20 anos, os vinicultores descobriram a arquitetura contemporânea. E transformaram o vinho, aliado às suas belas paisagens, num produto de marketing grandioso. Com isso, as vinícolas começaram a sofisticar seus espaços para receber os turistas. Se antes todas lembravam antigos casarões, hoje elas são modernas e futuristas. Uma das pioneiras foi a Clos Pegase, em Calistoga, criada por Michael Graves, em 1987, que tem estilo palladiano e está situada entre um morro e o vinhedo.

Nos anos 1990 surgem, no Napa Valley e nas proximidades, as construções que mesclam a idéia da cave (embaixo da terra) com uma edificação aflorada. A Artesa, desenhada por Triay e Bouligny, em 1991, foi umas das que propôs esse estilo. A vinícola foi inserida dentro de um morro, envolvida pela vegetação, o que lhe dá o aspecto de ser mais um contexto da paisagem.

Porém, um dos maiores ícones da arquitetura globalizada surgiu em 1994. Era o complexo Dominus, criado pelos suíços Herzog & De Meuron. A vinícola é uma estrutura volumosa que dialoga com a paisagem por meio de seu revestimento em basalto de diferentes dimensões encerrado em gabiões de ferro. A repercussão da imagem da cave foi demasiada e atualmente a Dominus não recebe visitantes e proíbe até fotografias.

Ainda no vale de Napa merecem ser citadas a Opus One, que possui uma construção semicircular envolta por taludes de grama e tem no seu alto um lugar para avistar os vinhedos, e a Quintessa, também em semicírculo de pedra. Na parte baixa, no nível do vinhedo, está a cave e na parte alta ficam os escritórios e áreas de degustação. Em 2009, o Napa deve ganhar mais uma obra arquitetônica, com a The Wall, de Frank Gehry.

Pelo mundo

Mas, além dos Estados Unidos, outras partes do mundo estão em processo de globalização arquitetônica de suas vinícolas. Uma das mais festejadas é a espanhola Ysios, na região de Riojas Alavesa. Criada em 2001, pelo arquiteto Santiago Calatrava, tem seu edifício concebido para integrar-se à paisagem. Em Portugal, encontra-se a adega Quinta do Encontro, em forma circular e revestida, cuja madeira emula uma barrica ao alto. A Adega Mayor apresenta simplicidade nas linhas e parece um grande retângulo branco. Já a Quinta do Seixo aposta nos espaços amplos e na pedra de xisto. Há ainda exemplos na Áustria, com a Loisium, na Nova Zelândia, com a Sileni, e no Chile, com a Perez Cruz e a Almaviva. "Mas há grandes projeto em países como Romênia, Armênia, Irã", aponta o arquiteto Celestino Rossi. Segundo a arquiteta Vanja Hertcert, tudo isso aconteceu "para mostrar ao mundo e ao mercado que o vinho é um produto que exige e merece uma atençãoarquitetônica especial e agregar valor a sua imagem".

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